Por Isabel Emerich – Nutricionista
Nos dias que antecedem a menstruação, algumas mulheres percebem que o intestino fica mais lento. As evacuações podem se tornar menos frequentes, as fezes ficam mais ressecadas e aumenta a sensação de inchaço ou de que o intestino não esvaziou completamente.
A alimentação pode contribuir para esse desconforto, mas geralmente não é a única explicação. Nessa fase do ciclo, o funcionamento intestinal pode ser influenciado pela combinação entre oscilações hormonais, ingestão insuficiente de fibras e água, prática de atividade física, estresse e mudanças naturais no apetite.
Por que o intestino pode ficar mais preso antes da menstruação?
Depois da ovulação, o organismo entra na fase lútea, que corresponde aproximadamente ao período entre a ovulação e o início da menstruação. Nessa etapa, há aumento da produção de progesterona.
Alguns estudos observaram que o trânsito gastrointestinal pode se tornar mais lento durante a fase lútea do ciclo menstrual. Em um estudo clássico realizado com mulheres saudáveis, o tempo de trânsito gastrointestinal foi significativamente maior nessa fase em comparação com a fase folicular. Outro trabalho também encontrou um prolongamento do tempo de trânsito colônico durante a fase lútea
Uma das explicações mais aceitas é que o aumento da progesterona durante a fase lútea possa contribuir para uma redução da motilidade intestinal. Estudos experimentais sugerem que esse hormônio exerce um efeito relaxante sobre a musculatura lisa do trato gastrointestinal, o que poderia tornar o trânsito intestinal mais lento. No entanto, esse mecanismo ainda não está completamente esclarecido em humanos, e os resultados dos estudos clínicos não são totalmente consistentes.
Isso ajuda a explicar por que algumas mulheres ficam constipadas antes de menstruar, enquanto outras não percebem qualquer diferença. Também há mulheres que apresentam o comportamento oposto e evacuam mais vezes quando a menstruação começa.
Portanto, o ciclo menstrual pode influenciar o intestino, mas a resposta não é igual para todas as mulheres.
E onde a alimentação entra nessa história?
Quando o intestino já está naturalmente um pouco mais lento, uma rotina alimentar com poucas fibras e pouca variedade de alimentos vegetais pode tornar o quadro mais perceptível.
As fibras aumentam o volume das fezes, ajudam a reter água e favorecem sua passagem pelo intestino. Elas também são fermentadas por bactérias intestinais e participam da formação de substâncias que contribuem para a saúde da microbiota intestinal.
Estudos mostram que aumentar o consumo de fibras pode ajudar a aumentar a frequência das evacuações e melhorar a consistência das fezes em pessoas com constipação. Os resultados, porém, podem variar conforme o tipo de fibra, a quantidade consumida e a resposta de cada organismo.
Na alimentação do dia a dia, frutas (principalmente com casca), verduras, legumes, leguminosas, aveia, sementes e cereais integrais são fontes importantes. Mais do que consumir um alimento isolado, o que costuma fazer diferença é a regularidade com que esses alimentos aparecem nas refeições. Combinações simples, como fruta com aveia ou chia no café da manhã, feijão no almoço e a inclusão de vegetais, lentilha ou grão-de-bico ao longo da semana, podem aumentar o consumo de fibras e contribuir para o bom funcionamento do intestino.
Uma mulher que passa vários dias comendo pouca fruta, poucos vegetais e muitas preparações refinadas pode perceber maior dificuldade para evacuar justamente na fase em que o intestino está mais sensível às alterações do ciclo.
A vontade de comer também pode mudar
É comum perceber mais fome ou maior desejo por doces, massas e alimentos mais palatáveis nos dias anteriores à menstruação. Quando essas escolhas ocupam o lugar de refeições completas, frutas, legumes e outras fontes de fibras, o funcionamento intestinal pode mudar.
Isso não significa que comer chocolate ou pão contribui com a constipação por si só. O problema está no padrão alimentar como um todo. Se durante vários dias houver menor ingestão de fibras, água e alimentos in natura, as fezes podem ficar mais ressecadas e difíceis de serem eliminadas.
Também não é preciso transformar esse período em uma fase de restrição. Uma estratégia interessante é preservar a estrutura das refeições, mesmo quando o apetite estiver diferente: incluir alguma fonte de proteína, alimentos vegetais e carboidratos que ofereçam maior saciedade e valor nutricional.
Aumentar as fibras de uma vez pode piorar o inchaço?
Quando uma pessoa consome pouca fibra e aumenta a quantidade de forma muito rápida, pode surgir mais fermentação, gases, distensão abdominal e desconforto. Por isso, o aumento deve ser gradual e acompanhado de uma ingestão adequada de líquidos.
Também é importante lembrar que nem todas as fibras se comportam da mesma maneira. Algumas são mais fermentáveis, enquanto outras ajudam principalmente na formação e no aumento do volume das fezes. Em pessoas com síndrome do intestino irritável ou sensibilidade gastrointestinal, a escolha da fibra precisa ser ainda mais individualizada.
A melhor alternativa é começar com mudanças possíveis de manter, como acrescentar uma fruta associada a fonte de fibras (sementes e grãos integrais), incluir vegetais no almoço e no jantar e consumir feijão, lentilha, grão-de-bico ou ervilha com maior regularidade.
Beber mais água resolve?
A hidratação é importante porque a falta de líquidos favorece a formação de fezes mais secas e endurecidas. O cólon retira água do conteúdo intestinal e, quando a ingestão está insuficiente, esse processo pode dificultar ainda mais a evacuação.
No entanto, beber quantidades excessivas de água não necessariamente soluciona a constipação em uma pessoa que já está bem hidratada. As evidências indicam que aumentar os líquidos tende a ser mais interessante quando existe baixa ingestão ou desidratação. Para quem já consome líquidos adequadamente, é necessário observar também fibras, atividade física e rotina de funcionamento intestinal.
Vale observar também sinais simples: sede frequente, boca seca, urina muito escura ou longos períodos sem ingerir líquidos podem indicar que a hidratação merece mais atenção.
Atividade Física também faz parte do cuidado com o intestino
A atividade física estimula o movimento do corpo e pode favorecer a motilidade intestinal. Alguns estudos mostram que níveis moderados ou elevados de atividade física a um menor risco de constipação intestinal.
Não precisa ser um treino intenso. Caminhar, levantar-se ao longo do dia, reduzir períodos prolongados sentada e manter alguma regularidade de movimento já são atitudes relevantes para ajudar o organismo como um todo.
Nos dias anteriores à menstruação, quando pode haver mais cansaço ou indisposição, é comum reduzir bastante a atividade física. Essa mudança, somada às alterações na alimentação e no próprio ciclo, pode contribuir para a sensação de intestino mais lento.
O que pode ajudar na semana anterior à menstruação?
O primeiro passo é observar padrão por 2 a 3 ciclos, manter refeições regulares, aumentar fibras gradualmente, distribuir líquidos, movimentar o corpo e respeitar a vontade evacuatória.
Durante essa fase, procure manter refeições regulares e incluir frutas, verduras, legumes, feijões e cereais integrais. Aumente as fibras aos poucos, distribua a ingestão de líquidos ao longo do dia e tente incluir atividade física.
Também vale respeitar a vontade de evacuar. Adiar repetidamente a ida ao banheiro pode fazer com que as fezes permaneçam mais tempo no cólon e percam ainda mais água. Criar um momento tranquilo para ir ao banheiro, especialmente após uma refeição, pode ajudar a estabelecer uma rotina.
Nem toda constipação antes da menstruação é causada pelo ciclo. Além do ciclo e da alimentação, medicamentos, suplementos, alterações tireoidianas, alterações metabólicas, gestação, síndrome do intestino irritável e outras condições clínicas também podem influenciar o funcionamento intestinal.
Quando o sintoma aparece de forma leve, sempre no mesmo período e melhora depois que a menstruação começa, ele pode estar relacionado às mudanças do ciclo combinadas aos hábitos daqueles dias.
Por outro lado, constipação frequente, dor intensa, sangramento nas fezes, perda de peso sem explicação, distensão abdominal persistente, anemia ou mudança súbita no funcionamento intestinal precisam ser avaliados por um profissional de saúde.
Mais do que recorrer a soluções rápidas quando o intestino não funciona adequadamente, o cuidado contínuo é o que traz melhores resultados. Alimentação variada, hidratação adequada, atividade física e atenção aos sinais do próprio corpo são os principais pilares da saúde intestinal.

Isabel Emerich
Nutricionista, Mestra e Doutora, com atuação em saúde metabólica feminina, equilíbrio hormonal e composição corporal
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